Quais são as principais minorias étnicas da China?
Conheça a rica diversidade cultural da China e suas principais minorias étnicas
Quando pensamos na China, e especificamente no cidadão chinês, normalmente temos uma visão um tanto quanto estereotipada. Mas, o que poucos sabem é que na verdade a China é um país de grande diversidade étnica, que se assemelha ao Brasil. Se por um lado o Brasil é extremamente diverso por causa dos séculos de colonização e imigração de pessoas de todos os lados do mundo, a China tem diversas etnias nativas do próprio país, somando ao todo 56 grupos étnicos diferentes.
Esse é um fato pouco conhecido entre ocidentais e latino-americanos. Mesmo para nós, estudantes de mandarim, que aprendemos sobre essa diversidade em aula, é difícil ter noção do quanto ela impacta o dia a dia dos chineses — especialmente em regiões com um grande número de minorias, como Xi’an, onde vivo, e que abriga muitos Casaques, Uyghures e Hui.
Apesar de o grupo 汉族 (hàn zú) representar cerca de 91% da população chinesa, as minorias étnicas da China, conhecidas em chinês como 少数民族 (shǎo shù mín zú), desempenham um papel essencial na construção da identidade cultural do país. Hoje, vamos explorar as características de algumas das principais e mais conhecidas etnias da China.
Claro, seria impossível resumir todas elas em um único texto, seriam necessários muitos blogs como este! Mas espero que, depois de hoje, você tenha uma base interessante para ver a China com novos olhos.

Quais são as principais minorias étnicas da China?
As minorias étnicas ocupam vastas regiões do território chinês, muitas vezes concentradas em áreas autônomas como Guangxi, Xinjiang, Tibete e Mongólia Interior. Agora, vou apresentar algumas das mais conhecidas e suas contribuições culturais:
Etnia Hàn
汉族 (hàn zú)
Os Hàn não são uma minoria étnica, mas acredito que seja importante apresentá-los primeiro. Eles representam cerca de 91% da população chinesa, ou seja, cerca de 1.3 bilhões de habitantes. Algo interessante é que o idioma chinês pode ser chamado de 汉语 (hàn yǔ), que significa literalmente ‘’Idioma dos Han’’, e é o idioma padrão da China.
Justamente por estarem em grande número, os Hàn são extremamente diversos entre si. Os hábitos culturais, a culinária e os festivais típicos de um Hàn do norte podem ser completamente diferentes dos de um Hàn do sul, por exemplo.
Etnia Zhuang
壮族 (zhuàng zú)
Com uma população de aproximadamente 18 milhões de pessoas, este é o maior grupo minoritário da China. Eles vivem principalmente na Região Autônoma de Guangxi e nas províncias vizinhas, como Yunnan e Guangdong. Os Zhuang são conhecidos por seus cantos folclóricos, chamados 山歌 (shān gē), que são usados para contar histórias, expressar amor e até mesmo resolver disputas. Os Zhuang têm uma tradição única de tecelagem e bordado, que reflete a história de suas comunidades.

O Festival do Canto, em mandarim: 歌圩节 (gē xū jié), é um evento anual onde as pessoas competem cantando músicas improvisadas.
Uma das iguarias típicas da culinária local é o 螺蛳粉 (luó sī fěn), um macarrão apimentado feito com caracóis, brotos de bambu e ervas, muito popular na região de Guangxi.

O que é uma região autónoma?
Tão desconhecido quanto a enorme diversidade da China é o fato de que o país possui uma divisão territorial bem definida, com algumas províncias sendo altamente independentes.
Enquanto as províncias de maioria étnica Hàn são bastante unificadas, aquelas com grandes populações de minorias étnicas recebem o título de Região Autônoma, em mandarim: 自治区 (zì zhì qū), e costumam ter governos e até leis próprias para atender às necessidades dessas comunidades.
Além da já citada região de Guangxi, exploraremos outras ao longo deste texto.
Etnia Hui
回族 (huí zú)

Com uma população de aproximadamente 10 milhões, os Hui são encontrados em diversas províncias, como em Ningxia, Gansu, Qinghai e Shaanxi, atual moradia do autor deste texto. Os Hui são conhecidos na China por diversos pontos culturais, mas o principal definitivamente é sua religião, o Islamismo, sendo os Hui uma das grandes etnias islâmicas da China, criando visuais imprecionantes de mesquitas que misturam estilos arquitetônicos chineses tradicionais e islâmicos.
Essa é a minoria com a qual mais tive contato aqui na China, e tenho diversos amigos e ex-colegas de trabalho Hui, tive muito contato com sua cultura e sou profundamente apaixonado em seu estilo de vida e, principalmente, como esse estilo de vida se destaca em uma China de maioria Hàn.
Culinária típica dos Hui:
O 兰州拉面 (lán zhōu lā miàn) é um dos pratos típicos mais conhecidos, famoso por sua massa esticada à mão e caldo aromático. É um dos pratos mais apreciados por muçulmanos que visitam a China, exatamente porque os chineses têm muito costume de comer carne de porco, algo proibido no Islã.

Em momentos como esse, a culinária dos Hui é como uma doce lembrança de casa que todo muçulmano pode provar em toda cidade chinesa, mesmo tão longe de sua terra natal. O 手抓羊肉 (shǒu zhuā yáng ròu) também é muito popular, este prato é uma carne de cordeiro cozida e temperada, consumida com as mãos.
Uigur
维吾尔族 (wéi wú’ěr zú)
Com uma população de cerca de 12 milhões, esta é uma das minorías étnicas mais emblemáticas da China. Habitam principalmente na região Autônoma de Xinjiang, dividindo a região com outras minorias como os Casaques, que são outra minoria muçulmana da China. São um povo de origem turca e descendentes dos antigos mercadores das rotas da seda, que durante séculos giraram a economia de escambo entre Europa, Oriente Médio e extremo oriente.
Dentre todas as outras minorias, os Uigures são definitivamente os que mais se destacam com sua aparência, distante da maioria Hàn. Com uma cultura que mistura tradições chinesas, turcas e a religião do islã. Sua tradição musical rica e o Muqam, que é uma forma de arte que combina música, poesia e dança, são realmente fascinantes nesse mar de diversidade que é a China.
Os Uigures estão profundamente arraigados no imaginário chinês e na mídia hoje em dia, com filmes e músicas que mostram sua cultura. Estrelas Uigures como Dilraba são aclamadas e extremamente amadas pelo público chinês mais jovem, que admiram sua aparência que lembra o asiático, mas com toques de outros diversos povos.
Culinária típica dos uigures:
- 大盘鸡 (dà pán jī) – Frango com batatas e pimentões, servido com macarrão.
- 馕 (náng) – Pão naan assado em forno de barro.
- 烤羊肉串 (kǎo yáng ròu chuàn) – Espetinhos de carneiro temperados com especiarias.
Curiosidade: Xinjiang é conhecido por seus tapetes artesanais, que são exportados para todo o mundo. Também é possível achar restaurantes Uigur em qualquer grande cidade chinesa e é provavelmente uma das culinárias favoritas entre os brasileiros que vivem na China.
Tibetanos
藏族 (zàng zú)
Com cerca de 6 milhões de indivíduos, os Tibetanos vivem principalmente na Região Autônoma do Tibete, mas são encontrados em outras províncias, como Sichuan, Yunnan, Gansu e Qinghai. São referência não apenas na China mas no mundo inteiro pelo Budismo tibetano, sendo a região autônoma do tibete um centro importantíssimo para a religião.


Embora sejam conhecidos principalmente pelo budismo, a cultura tibetana vai muito além da religião e é muito divertida, com festivais como o Festival do Ano Novo Tibetano, em chinês: 洛萨节 (luò sà jié) que é um dos eventos mais importantes, envolvendo orações, danças e banquetes. Outro ponto super interessante é a arte tibetana que inclui pinturas 唐卡 (táng kǎ), que retratam temas religiosos e do dia-a-dia da vida desse povo milenar.
Culinária típica:
- 糌粑 (zān bā) – Farinha de cevada torrada, um alimento básico no Tibete.
- 牦牛肉 (máo niú ròu) – Carne de iaque, preparada de várias formas.
- 酥油茶 (sū yóu chá) – Chá com manteiga de iaque, consumido para resistir ao frio.
Curiosidade: O Monte Everest, chamado de 珠穆朗玛峰 (zhū mù lǎng mǎ fēng), é parte da região tibetana.
Mongóis
蒙古族 (měng gǔ zú)
Muitos conhecem os Mongóis como o povo conquistador que comandou um dos maiores impérios conhecidos da história, mas um fato que muita gente não conhece é que no norte da China, na fronteira com a Mongólia, em uma Região autónoma chamada Mongólia Interior, vivem cerca de 6 milhões de Chineses Mongóis.


Os mongóis são lembrados pela sua história de conquistas imperiais, mas hoje em dia se dividem em dois tipos principais: Há mongóis nômades que mantém uma vida similar à de seus antepassados, vivendo nas planícies criando cavalos e outros animais e migrando de tempos em tempos; E há também os mongóis que aderiram ao estilo de vida em cidades. Embora a maioria da população em cidades sejam de Chineses Hàn, a cultura, culinária e idioma mongóis são evidentes no dia-a-dia da região autónoma.
Algo fascinante nos mongóis são os esportes tradicionais, que hoje em dia ainda são muito praticados. Eles incluem diversas lutas que lembram o judô, além das especialidades dos mongóis, que são arco e flecha e corridas de cavalos, sendo muitas vezes considerados os arqueiros mais habilidosos do mundo.
Culinária típica:
- 烤全羊 (kǎo quán yáng) – Carneiro assado inteiro, servido em festivais.
- 奶酒 (nǎi jiǔ) – Conhecido como vinho de leite ou Airag em Mongol, é uma bebida alcoólica leve típica feita de leite de cabra ou vaca.
Curiosidade: O Festival de Naadam – 那达慕 (nà dá mù) celebra a cultura mongol através de competições esportivas.
Etnia Miao
苗族 (miáo zú)
Com uma população de aproximadamente 10 milhões de pessoas, esse povo vive principalmente nas províncias de Guizhou, Hunan, Sichuan e Guangxi. São conhecidos por seus trajes vibrantes, bordados e jóias de prata, sendo que a prata é parte importante de sua cultura.

O Festival das Flores, em chinês: 花山节 (huā shān jié), celebra a chegada da primavera com danças e músicas e atrai muitos turistas, que vêm de toda a China e até de outros países.
Culinária típica:
- 酸汤鱼 (suān tāng yú) – Sopa de peixe azedo, preparada com tomate e especiarias.
- 米酒 (mǐ jiǔ) – Vinho de arroz fermentado.
Curiosidade: Os Miao têm uma rica tradição de histórias e lendas passadas de geração em geração.
A profª Sisi também já fez um vídeo contando sobre as etnias da China, onde ela usou as vestimentas típicas da etnia Miao, confira:
Como a China preserva a cultura e idiomas das minorias étnicas?
Com a globalização e a universalização do Mandarim como idioma padrão ensinado nas escolas, é óbvia a necessidade de um esforço do governo e população para defender não apenas os idiomas minoritários, em risco de desaparecer com o tempo, mas também as culturas que são dependentes desses idiomas.
O governo chinês vem tentando implementar políticas como a educação bilíngue, permitindo que crianças aprendam em sua língua materna e em mandarim, e apoia a criação de materiais didáticos em línguas locais. Meios de comunicação, como rádios e canais de TV, são transmitidos também em idiomas minoritários, enquanto publicações e eventos culturais ajudam a promover seu uso.
O Mandarim é de extrema importância, pois é ele que é usado amplamente nos principais meios de comunicação e de educação, mas manter vivos os idiomas das minorias étnicas é importante de um ponto de vista cultural.
Sendo assim, iniciativas para digitalizar e documentar línguas ameaçadas, juntamente com o trabalho de acadêmicos, garantem a preservação de tradições linguísticas. Apesar de desafios como a urbanização e o uso predominante do mandarim, esses esforços fortalecem a identidade cultural das minorias e reconhecem sua importância no mosaico cultural da China.
Quer descobrir a cultura chinesa?
A culinária, a música e a dança das minorias étnicas são verdadeiros tesouros do patrimônio cultural chinês. Cada grupo possui formas artísticas que expressam suas histórias, crenças e conexões com a natureza e com o mundo espiritual.
Por exemplo, as danças em círculo dos mongóis, frequentemente realizadas durante festivais, ou as melodias características das etnias Dai e Miao, encantam o público com sua energia e beleza. Esses elementos não apenas preservam tradições antigas, mas também ajudam a promover o diálogo entre as diversas culturas dentro do país.
Outro aspecto notável é o impacto linguístico das minorias étnicas. Com mais de 50 grupos étnicos diferentes, a China é um mosaico linguístico que vai além do mandarim. Línguas minoritárias, como o tibetano, o uigur e o zhuang, não apenas refletem histórias e culturas distintas, mas também enriquecem o panorama linguístico nacional.
A experiência de viver ou visitar a China é incomparável, e se você quer se aprofundar na cultura chinesa, aprender mandarim é essencial. Se viajar para a China e viver sua cultura é um dos seus objetivos, conheça mais sobre o Clube de Chinês e venha estudar conosco.

Angelo Rigonatti
Brasileiro. Professor de Mandarim no Clube de Chinês, Jornalista e Tradutor, Estudante de Administração Pública na Universidade Jiaotong Xian, na China.