Por que a arquitetura chinesa é tão única?
Entenda como a China conquistou o Prêmio Pritzker de Arquitetura
Você já deve ter visto alguma foto de templos chineses e notado como eles são diferentes do que conhecemos aqui no Brasil. Com telhados curvos, uso de madeira e cores fortes, os templos impressionam pela sua beleza.
Hoje, vamos nos aprofundar nas características da arquitetura chinesa, seus usos e significados. Vamos lá!
Características dos edifícios chineses
Preferência por madeira e flexibilidade

Por ser um país suscetível a terremotos e, perto de rios como o famoso Yangtze, sofrer risco de inundação, sua arquitetura reflete também uma forma de proteção. A construção de prédios era feita com pilares, mas evitando colocá-los com a fundação e suportes flexíveis. Isso permitia que os edifícios resilientes a terremotos e tempestades, e também permitiram reconfiguração, expansão e reconstrução se os edifícios fossem danificados.
Telhados únicos

Sem dúvida, os telhados chineses chamam a atenção pela sua beleza e características únicas. Uma vez que o material dos edifícios é majoritariamente madeira, é preciso se preocupar com o intemperismo, uma vez que a madeira é muito suscetível a apodrecer caso tenha muito contato com a água. Por isso, os telhados curvos repeliam a água das paredes do edifício em tempos chuvosos. Além disso, promovem sombra no verão e, no inverno, ajudam a inclinar a luz solar para aquecer os cômodos do edifício.
Edifícios únicos da arquitetura chinesa
Pátios chineses

Os pátios tradicionais desempenham um papel essencial na vida familiar chinesa. Em regiões seguras e ricas em madeira, os clãs construíam compostos de pátio de madeira, conhecidos como 四合院 (sì hé yuàn).
Esse modelo habitacional permitia renovação e reparos contínuos, evitando a necessidade de realocação. Como resultado, os membros da família conviviam em espaços fechados por toda a vida, adaptando-se a novos papéis com o tempo. Além disso, essas moradias reforçavam tradições familiares, como respeito aos mais velhos e papéis definidos para homens e mulheres.
Seja em palácios ou residências camponesas, a construção seguia regras específicas, como orientação norte-sul, simetria, um único andar e entradas ao sul, garantindo o bem-estar e segurança dos seus habitantes.
Por exemplo, os pátios chineses costumam ter sua orientação voltada ao sul, pois assim aproveitam ao máximo a luz solar durante o inverno e, posicionando os quartos dos servos e guardas ao lado da entrada principal, permitem mais segurança aos membros da família desse pátio, principalmente os mais velhos e que tivessem maior status social. Até mesmo a escolha de quantidade de andares visava garantir mais segurança. Edifícios de um andar sobrevivem melhor a terremotos e ventos de tempestade do que edifícios de vários andares.
Os famosos tulous chineses


Em Fujian, é possível encontrar um tipo único de edifício, conhecido como “edifícios de barro” 土楼 (tǔ lóu). Feitos para proteger as aldeias de ataques, eram construídos com paredes grossas de terra batida, com tijolos e pedras sendo utilizadas para formar um círculo sem janelas.
Templos budistas

A China é muito apreciada pela arquitetura de seus templos, influenciados principalmente pelo Confucionismo e Taoísmo. De diversas épocas, impressionam pela sua unicidade e estilos tão diferentes. Um dos templos mais marcantes que já visitei é o Hong’en Temple em Chongqing.
Neles, é possível ver a influência das características faladas acima – os telhados únicos, o uso de madeira e a aplicação de princípios do Feng Shui.
A influência do Feng Shui na arquitetura chinesa
No Brasil, é comum ouvirmos falar de regras do feng shui chinês, em mandarim: 风水 (fēng shuǐ). Quem nunca viu uma tia mudando os móveis da sala para “melhorar o feng shui, porque a energia não está legal”, não é mesmo? Por mais que pareça uma crença para nós, o feng shui influenciou a arquitetura antiga chinesa, chegando até mesmo a definir onde seria a capital da China em determinados períodos de tempo.
Um dos princípios mais facilmente identificáveis é a simetria, presente nos pátios chineses de Pequim e até mesmo na Cidade Proibida, acredita-se que isso traz mais harmonia para o ambiente. Curvas são vistas como um símbolo de vitalidade, por isso diversos arcos, corredores e até pontes apresentam curvas na sua construção.
Também é positivo plantar árvores ao redor de prédios, pois antigamente era visto como uma forma de proteção e prosperidade dos vilarejos. Entretanto, existem uma série de regras quanto ao tipo de planta: amoreiras não devem ser plantadas na frente das casas, enquanto salgueiros não devem ser plantados no quintal aos fundos. Árvores grandes também devem ser evitadas no quintal, uma vez que bloqueiam não apenas o fluxo de ar, mas também a luz do sol.
Claro que, na vida real, é difícil selecionar um local ou construir um edifício com Feng Shui perfeito. Então, o princípio de modificar o Feng Shui é aplicado. O plantio de árvores acima mencionado ao redor de edifícios é um método de modificar o Feng Shui. Como a prática também exige que as águas continuem em movimento, outras práticas de modificação aplicadas à arquitetura incluem cavar poços se não houver água suficiente, cavar canais se o fluxo de água estiver bloqueado.
Arquitetura moderna e o prêmio Pritzker de 2025

Este ano, a China foi reconhecida pelo maior prêmio de arquitetura, chamado Pritzker. Essa é a segunda vez que a China é premiada, em 2012 o arquiteto Wang Shu conquistou o primeiro e agora Liu Jiakun garantiu o segundo.
Você já tinha ouvido falar dele? Liu Jiakun, vencedor do Prêmio Pritzker de 2025, passou décadas redefinindo a arquitetura chinesa, combinando tecnologia com tradição e trazendo para seus projetos engajamento social. Seus edifícios são reflexos da vida cotidiana de pessoas comuns, criados com uma compreensão do lugar, cultura e materialidade.
Rejeitando a busca por um estilo arquitetônico fixo, Jiakun acredita em uma estratégia em vez de uma estética exclusiva, adaptando cada projeto ao seu contexto e necessidades específicas. A abordagem de Jiakun está profundamente enraizada na filosofia chinesa, no senso comum e no artesanato local, garantindo que a arquitetura cresça naturalmente a partir de seus arredores, em vez de ser imposta a eles.
Além de arquiteto, Liu Jiakun também é engajado no ensino, discurso público e conhecimento intelectual, usando essas plataformas para refletir sobre as dimensões filosóficas, culturais e sociais da arquitetura. Ele acredita em “tecnologia apropriada” – uma abordagem que valoriza a simplicidade, a acessibilidade e a sustentabilidade de longo prazo em vez do espetáculo arquitetônico. Esse pensamento é evidente em suas obras construídas, onde ele frequentemente colabora com trabalhadores locais, íntegra materiais recuperados e se adapta às restrições do mundo real com engenhosidade.
Vocabulário de arquitetura em chinês
Se você é arquiteto ou tem interesse pela arquitetura chinesa, segue um vocabulário básico de arquitetura para explorar e iniciar sua jornada de exploração por esse campo!
Elementos Estruturais
基础结构 (jī chǔ jié gòu)
- 基础 (jī chǔ) – Fundação
- 柱子 (zhù zi) – Pilar
- 梁 (liáng) – Viga
- 楼板 (lóu bǎn) – Laje
- 砌体 (qì tǐ) – Alvenaria
- 拱 (gǒng) – Arco
- 圆顶 (yuán dǐng) – Cúpula
- 组成 (zǔ chéng) – Formar, constituir
Partes de um Edifício
建筑部件 (jiàn zhù bù jiàn)
- 建筑 (jiàn zhù) – Edifício, arquitetura
- 四合院 (sì hé yuàn) – Casa com pátio
- 土楼 (tǔ lóu) – Edifício típico chinês
- 民居 (mín jū) – Residência popular
- 墙 (qiáng) – Parede
- 屋顶 (wū dǐng) – Telhado
- 门 (mén) – Porta
- 窗户 (chuāng hu) – Janela
- 楼梯 (lóu tī) – Escada
- 走廊 (zǒu láng) – Corredor, passagem
- 厢房 (xiāng fáng) – Ala lateral, quarto anexo
- 空间 (kōng jiān) – Espaço
Estilos e Funções
风格与功能 (fēng gé yǔ gōng néng)
- 形式 (xíng shì) – Forma, modo
- 样式 (yàng shì) – Padrão, estilo
- 并列 (bìng liè) – Dispostos lado a lado
- 功能 (gōng néng) – Função
- 风格 (fēng gé) – Estilo
- 结构 (jié gòu) – Estrutura
- 木材 (mù cái) – Madeira
- 石材 (shí cái) – Pedra
- 混凝土 (hùn níng tǔ) – Concreto
- 玻璃 (bō lí) – Vidro
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Lúcia Puglia 卢西亚
Professora do Clube de Chinês, mestranda em Estudos da China na Universidade de Zhejiang. Graduada em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo e em Ensino de Mandarim para Estrangeiros pela Hubei University. Apaixonada por viajar e aprender novos idiomas.